Archive for março 2012

Ambiente Espacial

      Desenvolvimento do Ambiente Espacial descrito no conto Caravana


     O ambiente transmutou-se. Em um piscar de olhos as arvores haviam sumido. A bruma que antes rala, tomou conta de tudo o que havia ao seu redor. A penumbra permanecia acompanhada pela lua que seguia sob sua cabeça. A grama, tomada pela terra, tornou-se inexistente. O chão havia sido consumido pelo céu noturno e se expandia até abaixo de seus pés. Seu redor fora preenchido pela escuridão da noite, do espaço. 
      Em um flash, incontáveis astros preencheram o ambiente. Flutuava. Olhou ao seu redor, contemplou os astros e os infinitos planetas que surgiram, avistou nebulosas e galaxias inteiras, apreciou a aurora e a morte de estrelas. Estava no espaço. A paisagem lhe era magnifica. Nunca havia apreciado tamanha beleza.
      Levantou a cabeça. Olhou em frente e vistou um carvalho, sustentando por um bloco de terra, que como ele flutuava no ambiente espacial. Caminhou até ele. Era gigantesco. Maior do que lhe pareceu à primeira vista. Percebeu que a arvore titânica se estendia por milhares de quilômetros a cima, e como furtos, suplantados em meio aos galhos do colossal carvalho, haviam algumas estrelas e planetas. 
Mirou ao pé do carvalho. O tronco era maior do que de qualquer um que ele já tenha visto, lhe pareceu absurdamente forte, inabalável, mas mesmo assim, não poderia suportar todo o seu tamanho. Não compreendeu. Ali não havia física, não havia gravidade. Avistou também alguns pequenos animais ao redor do carvalho. Esquilos brincavam, borboletas pairavam e formigas trabalhavam. Não compreendeu.
      Se aproximou mais do tronco. Uma figura humana ali estava. Sentado sob as raízes da arvore titânica, sustentava em frente à boca, com uma mão, um cachimbo de madeira, entalhado por algumas runas que ele não soube decifrar. Com a outra mão postada em meio à barba, uma vez ou outra, a levava a um pequeno saco, cuidadosamente colocado ao seu lado, a fim de buscar um punhado de frutas secas e levá-las até a boca. A longa barba cinzenta estendia-se até a altura do umbigo. Vestia uma túnica verde-musgo e um chapéu de mesma cor, com longas abas e bico pontudo, típico dos magos. Um cajado rústico de madeira estava escorado ao no tronco, ao seu lado. Era tudo tão místico, tão surreal.
            - Bem vindo jovem. – O velho disse, sem tirar a atenção do cachimbo.

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Enquanto te exploram, tu grita gol.

Hoje, cheguei a uma conclusão. Realmente vivemos no país do futebol, o Brasil. Apreciado aqui, com tanto louvor, temos esta arte. O 'futebol-arte'. Belíssimo. Nossos heróis são aqueles 'mágicos' que brincam com a bola de maneira magistral. Tantos dribles e jogadas demonstrados com tamanha destreza. Eis a famosa 'ginga'. O futebol esta no nosso dia-a-dia. É um exito a vitória na rodada do Brasileirão. Faz parte do nosso carpe diem.
Mas infelizmente somos driblados, diariamente, com tamanha (ou maior) maestria exibida por nossos heróis da bola. Mas quem são estes maestros, que nos driblam desta forma? Tomamos dribles dignos de mestres. A bola que some dentre os pés de um jogador é remetida pelo IPVA que some em meio as contribuições. Nossos políticos, nossos craques. Não da bola, mas do dinheiro. Estes sim possuem a já comentada 'ginga'.
Ocupamos a sexta colocação no ranking de maiores economias do planeta. Temos cash. Por tal, estamos prestes a gastar cerca de 70 bilhões de reais em investimentos para a copa que procederá. Temos cash... Mas e os investimentos na área da saúde? Olé! E o dinheiro que deveria ser destinado a educação? Olé! E a nossa segurança? Olé!
Perdemos. E de goleada. Mas porque? Somamos noventa e nove porcento de explorados que não concordamos com isso, ou de esquecidos... Não sei, mas aí liga a TV que hoje tem Libertadores.

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Um

O homem é um ser reflexivo. Temos como instinto pensar e refletir sobre tudo aquilo que nos rodeia. E por tais devaneios, somos instigados a questionar. Começa muito antes de aprendermos a falar, escrever, nos comunicar. Assistimos ao mundo que nos rodeia, e em silêncio, por menor que seja nossa vivencia, procuramos absorver aquelas minimas respostas, aquelas que nos levam a entender, que somos, quem são aqueles que nos rodeiam e aonde estamos.
Então crescemos, aprendemos a nos comunicar e por tal, passamos não só a questionar sozinhos, mas em grupo, pois agora discutimos nossas reflexões. A partir desse instinto frenético de questionar, evoluímos. Passamos a compreender os mais complexos acontecimentos daquele mesmo mundo que nos rodeia desde pequenos.
O homem, não desiste, e seu instinto questionador o levou a perguntas nais quais as respostas não se limitam ao nosso mundo material, passamos a refletir sobre sentimentos, vida e morte, e por fim, a respeito sobre o sentido da vida. Porque estamos aqui? Realmente, esta é uma pergunta sensacional, passamos horas buscando nosso objetivo, aquele que seria o motivo de nossa existência. Eu, sempre fui muito lógico.
As pessoas não tem um objetivo. Cada ser possui sua parcela de deveres e responsabilidades, todos os dias somos cobrados ou cobramos. Porque? Estamos ocultando o real sentido da existência. Há verdades inquestionáveis, e por mais rude que pareça, esta é uma: Nosso tempo é limitado. Não estamos aqui a toa.
Se realmente existe uma resposta para o sentido da vida, eu acredito que seja: Felicidade. Parece contraditório, afirmei que as pessoas não tem um objetivo, e cito a felicidade como tal. Mas é isso mesmo, cada pessoa não tem o seu, nós, temos um objetivo. Devemos buscar a felicidade a qualquer custo, o resto deve ser secundário.
Seja tolo. Devemos ser tolos o suficiente pra errar. Não interprete o erro como uma falha na qual você deve se lamentar, e sim em uma experiencia sem igual afinal, você aprendeu mais uma maneira de como não fazer ou agir, só os tolos tem esse poder.
E pense, na inquestionável verdade: Você vai morrer. Ninguém nunca escapou da morte ou desistiu dela. Tenha ela como base pra agir, questione-se, se você realmente é feliz desta maneira, a morte é o parâmetro. A frente dela, não existe mais arrependimentos ou frustrações, é apenas o seu coração lhe guiando. Pense como se fosse seu último dia, você morreria feliz com suas atitudes? Se a resposta for não, por muitos dias seguidos, algo deve mudar, pois afinal, um dia você vai acertar.
E se soa-lhe estranho agir desta maneira instintiva, com medo de errar, lembre que somente os tolos tem esse valioso poder.  

Ricardo Richter, Outubro de 2011.

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A Notícia - Parte II

           Parte I

            Quando o sol demonstrava seus primeiros raios do horizonte montanhoso, os homens de Arslan já cavalgavam, em meio ao inverno, o clima havia se tornado mais uma adversidade há sua busca, semanas já tinham se passado desde que partiram, deixando a tribo. Era claro que os homens, já sentiam falta de suas famílias e das iurtas quentes em meio ao inverno, mas estariam sempre ao lado do seu cã, mesmo que ele os guiassem aos portões do inferno, eles permaneceriam ali. Era tarde e os homens apearam para comer, a manhã cavalgando havia sido boa, o tempo aberto lhes permitia grande visão e o ar seco permitia que os animais mantivessem os pulmões cheios de ar.
Arslan andava em meio ao acampamento temporário, aproximando-se de Borte enquanto ela e outras arqueiras cozinhavam carne de cordeiro sobre as pedras quentes de uma fogueira.
            - Minha filha, como é bom tê-la ao meu lado buscando seu irmão – Eram palavras doces de um pai para filha, Arslan havia dito as palavas enquanto passava dos dedo dentre os cabelos escuros da jovem.
            Borte permanecia sentada a frente da fogueira, com um olhar sério e fixo sobre as chamas que assavam a carne.
            - Minha vontade é sua, meu cã. – Borte era uma moça de temperamento forte, e Arslan sabia disto, mas neste momento não queria tê-la como uma guerreira, desejava conversar com sua filha. O cã sentou-se ao lado da moça.
            - Sabe Borte, você é a das melhores guerreiras que eu possuo, tenho muito orgulho por isso. Mas neste momento não desejo conversar com minha guerreira, quero conversar com minha filha. – Sem dúvidas a situação de ter perdido um filho deixará Arslan mais sucessível as emoções familiares, que antes deveriam ser encobertas para não serem vistas como uma fraqueza do cã, que passou a ver seus filhos como guerreiros, e nada mais.
- Pai, eu estou farta disto, tenho raiva de tudo isto, já perdi as esperanças de achar meu irmão!
- Mantenha o foco filha, e concentre esta raiva! Juntos, deixaremos Theokoles e seus homens de joelhos! Você sabe que podemos! Você é a melhor arqueira da tribo, mesmo dentre os melhores homens, nenhum possui tamanha precisão quanto você! Borte, você é invejada pelos homens, não existe mulher mais forte que você nestas planícies, além de excepcional guerreira você possui o comando de outras arquieras!
Arslan era um ótimo motivador, e sabia escolher as palavras certas as pessoas certas, não havia momento em que ele fraquejasse na fala. Borte sorriu, e Arslan pode ver seus olhos brilharem, não soube ao certo se brilhavam devido as chamas da fogueira ou aos seus elogios e motivações, mas soube que ela não fraquejaria mais em frente aos demais guerreiros.
Um grupo cavaleiros se aproximava com velocidade do local aonde os homens comiam, vários levantaram sacando as armas até que Arslan deu ordem para abaixarem as armas. Eram os batedores do cã, voltando de uma ronda, pareciam estar o cã percebeu certa ansiedade nas expressões dos cavaleiros.
- O que trazem homens? – Introduziu Arslan levantando-se do lado de sua filha.
- Senhor, avistamos rastros, cerca de oito homens a cavalo e outros a pé.
- Mas como sabem que estes rastros são de Theokoles?
- Perguntamos a alguns pastores na região, todos confirmaram a presença de um grupo de guerreiros que roubava e matava tudo o que achassem. Não vejo motivos para estes pastores e famílias estarem mentindo meu cã.
- A quanto tempo de distancia estamos deles? – Arslan questionava os batedores sentido seu coração acelera-se de modo incontrolável, possuía uma certeza instintiva que lhe dizia que eram os homens que procurava, e faria estes pagarem pelo ato cometido.
- Acredito que estamos a cerca de trinta luas de distância senhor, mas cavalgando constantemente, podemos alcançá-los com antecedência. – Sem dúvidas Arslan faria seus homens cavalgarem de lua a lua, até a exaustão para estar perto o suficiente de Theokoles a ponto que ele ouvisse sua respiração e sentisse sua espada cortando-lhe a garganta.
- Levem estas informações até Nathanael, para que eu possa discutir uma estratégia com ele á noite.

A noite havia caído há muito tempo, desde então Nathanael não havia saído da iurta do cã, estavam empolgados com a possibilidade de encontrar os mercenários que haviam levado Tridian, passaram horas conversando, a emoção de estar próximo a Theokoles era tamanha que eles haviam se perdido nas horas, e a conversa havia fluido madrugada adentro, até que os dois desmaiassem de sono, satisfeitos pelo esforço realizado não ter sido em vão. Batedores fizeram ronda a noite inteira, além dos guardas que ficavam no acampamento, em postos frente a fogueiras, revezando turnos durante a noite. O cã não podia deixar seus guerreiros vulneráveis a um ataque surpresa, pois alem de Theokoles e seus homens, outros grupos mercenários ainda vagavam em meio às planícies, mesmo que fossem derrotados pelas forças das tribos, alguns ainda não haviam encontrado as laminas dos filhos das planícies.
Arslan fizera os homens cavalgaram toda a manhã, sem descanso já pareciam fraquejar até mesmo alguns dos melhores guerreiros já deixavam as expressões de exaustão surgir nos rostos. Os dias de cavalgada estavam fadigando seus homens, mas o cã precisava encurtar a distância entre eles e Theokoles. Seguiram a tarde cavalgando, e neste momento Arslan sabia que os dias de esforço haviam encurtado a distância para duas ou três luas, seus batedores relatavam estarem cada vez mais próximos da preza, enviava batedores constantemente a leste, direção de aonde vinham os relatos de avistamento do grupo de Theokoles.
Borte ajeitou-se sobre a cela de sua égua enquanto observava fixamente o horizonte, tinha este costume, o olhar fixo e enigmático sobre as coisas buscando algo que somente ela saberia, neste momento sua expressão era indecifrável. Em um piscar de olhos a jovem guerreira avistou um grupo de quinze ou vinte cavaleiros carregando estandartes que ela não soube reconhecer. Imediatamente levou uma mão a cela aonde seu arco estava preso e a outra em sua aljava buscando uma flecha, tamanha destreza da moça que nenhum comando precisou ser dito para que as outras arqueiras repetissem o movimento de Borte. No mesmo instante Arslan gritou ordens para seus homens e não foi necessária a intervenção de nenhum homem de confiança para organizar os guerreiros, sua voz era firme, e ecoou em meio à imensidão da planície. O grupo de guerreiros avistado por Borte não tinha sido visto por seus batedores, bufou de raiva e xingou em pensamentos achando que estava dando foco demais a Theokoles e os deixando vulneráveis a outros grupos atacantes. Nathanael estava montado em sua égua quando se aproximou do cã em silencio, esperando algum comando,
- Você reconhece o estandarte? – O cã precisava de uma confirmação de Nathanael sobre a possibilidade de serem emboscados por outros grupos mercenários, pois sabia que não seriam atacados por outras tribos já que estas estavam unindo-se para expulsar os invasores.
- As cores indicam que são da capital senhor. – Nathanael permanecia sério com os olhos fixos nos homens que se aproximavam.
- São os homens de Theokoles? – Arslan perguntava mantendo o olhar sobre os homens no horizonte, com uma expressão semelhar a de Borte, e Nathanael soube que moça herdara tal habilidade do pai, que no momento, apesar do rosto frio, sentia a ansiedade por encontrar Theokoloes, mesmo que não o fosse, combateria estes fantasiando a batalha que faria o homem que capturou seu filho sangrar.
- Os mercenários de Theokoles são desgarrados das tribos, não possuem estandarte, andam como uma serpente disfarçada em meio a grama alta, estes são homens de algum nobre da capital.
            A distância entre eles diminuía a ponto que os homens de Arslan cavalgavam excitados com batalha que se aproximava. Os inimigos possuíam armaduras completas, escudos e lanças, todos gravados com o mesmo símbolo que era mostrado no estandarte, permaneciam em formação enquanto o cã fazia seus homens cavalgarem levando seus cavalos ao máximo, Borte e suas arqueiras já disparavam a morte com seus arcos, uma flecha seguida da outra, atingindo escudos e armaduras fazendo homens caírem nas primeiras fileiras. Os homens guiados por Arslan já giravam suas armas no ar, gritando e xingando os oponentes enquanto alguns outros já atiravam lanças em direção a formação dos mercenários.
            A formação era compacta e, todos se protegiam com escudos enquanto algumas lanças se projetavam das fretas. Estavam em maior número que os homens do cã, e eram comandados por um único homem.
            - Alto homens! Mantenham a posição e esperemos eles se aproximarem. – Sua voz era forte e rouca, Aardez era um homem alto de cavanhaque, uma cicatriz marcava-lhe o rosto iniciando-se na maçã do rosto, a altura do nariz, cruzando o olho e encerrando-se na testa. Apesar da grande escarra Aardez não havia perdido o globo ocular, e podia enxergar perfeitamente.  Seu físico era forte e bem protegido por uma armadura completa, enfeitada com detalhes em ouro, o arco longo destacava-se em suas costas, era um homem de meia idade, mas possuía uma experiência espantosa em combate.

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The Gift of Knowledge

Ilustração por Jeremy Owen

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A Notícia - Parte I

Era noite e uma fina garoa caia sobre as planicies, Arslan estava recolhido em sua iurta desfrutando de alguns goles de airag e pensando como defenderia sua tribo desta ameaça que vinha de todos os lados. Escutou cascos de cavalos apeando perto de sua iurta e logo, dois homens entraram pela estreita porta, estavam molhados e esbaforidos, o cansaço era visível em suas expressões, haviam cavalgado por tempo demais sem dar descanso aos cavalos e a si mesmos. Arslan reconhecera os dois homens, como subordinados de seu filho, Tridian, o ar de tensão tomou o pequeno espaço da iurta, sabia que boas notícias não viriam se não de seu próprio descendente retornando de um ataque bem sucedido. Escondeu a tensão em suas expressões, e procurou não mostrar fraqueza na frente de seus homens, mas a ansiedade pela noticia que eles lhe traziam era quase incontrolável. A tensão era tamanha que havia esquecido dos modos de anfitrião, apenas desejava saber o que aqueles homens tinham a lhe dizer.
Enchendo os pulmões de ar, um dos homens buscava fôlego e desejava, sem sucesso escolher as palavras para seu cã, procurando não causar-lhe um ataque de fúria.
- Senhor, sinto em lhe dizer que fomos emboscados, à noite enquanto cavalgávamos a um pequeno acampamento mercenário. Muitos de nós foram mortos pelo combate, outros por orgulho de não ser capturados. Seu filho, meu senhor, Tridian, foi capturado, e levado a capital. Voltamos para lhe trazer esta noticia.
Arslan recebera a noticia como um golpe pelas costas, pegou-se fraquejando em frente os homens, e logo, mais três guerreiros entram na iurta, eram homens de confiança, e logo sentiram a tensão nos olhos do cã, procurou esconder o desespero, e em um instante à raiva havia tomando seu corpo fazendo-o suar e sentir o sangue quente nas veias. Os homens de confiança observavam em silencio e assentiam a raiva do cã, os dois homens permaneciam buscando ar dentro do pequeno e quente ambiente.
- Como foram emboscados? Não é possível, Tridian possui um grande conhecimento em batalha. E estas legiões mercenárias não possuem táticas de batalhas como estas, são homens treinados nas cidades de pedra.
Um dos cavaleiros deu um passo a frente e se aproximou de Arslan, ajoelhou-se em frente ao cã buscando o ar para escolher as palavras novamente.
- Senhor, podemos notar que, estes homens não eram mercenários treinados, eram nosso semelhantes, eram homens das planícies, tenho certeza!
O outro cavaleiro que escapou acrescentou:
- Pude ver claramente um que se parecia com o líder deles, era alto, com cabelos longos e claros, andava de kilt como nós, sem duvida era um guerreiro tribal, assim como nós, senhor.
Arslan tentou buscar na memória a imagem de um homem que se parecia com o descrito, mas não se recordava de nenhum, apenas pensava em vingança e punir aqueles que capturaram seu filho. A raiva nos olhos do cã era tamanha que, até mesmo seus homens de confiança temiam um ataque incontrolável de fúria, Arslan não compreendia como homens das tribos podia atacar seu próprio povo em troca de algumas moedas, eram irmãos, não de sangue, mas estavam ligados pela planície e pelos longos invernos gelados.
- Creio que conheço este guerreiro senhor – Disse Nathanael, um dos homens de confiança. – Acredito que seja Theokoles, o renegado, um poderoso guerreiro que foi expulso de sua tribo por possuir um comportamento inadmissível em meio às famílias. Hoje ele reúne outros desgarrados e se intitula cã destes homens.
Arslan não sabia como reagir senão retalhar a emboscada, ainda sério e com a sua raiva controlada, era esta de umas habilidades do cã, - o controle da raiva – disse:
- Por anos não cativamos rixas entre as tribos e não atacamos outros de nós, mas a guerra veio até nós. Quero que ao amanhecer estejam prontos, pois se necessário cavalgaremos todo o continente atrás de Theokoles, ele saberá como um cã deve agir.
- Estarei ao seu lado meu cã. – Concordou Nathanael.  
- Então permaneça em minha iurta Barca, assim podemos ter uma conversa entre amigos de longa data.
Os outros homens de confiança acompanharam os dois cavaleiros para fora da iurta, adentrando ao frio e a garoa da noite na planície. Nathanael era um homem de idade avançada assim como o cã, mas mesmo assim era um excelente guerreiro, os anos em batalha lhe deram larga habilidade ao brandir espadas e atirar com arcos. Era o primeiro homem de confiança de Arslan, e também um grande amigo.
- Sente-se comigo, creio que também não consiga acreditar na captura de meu filho.
            - Não entendo como Tridian fora capturado, ele não era um leigo em batalhas, já comandava homens e seria cã um dia.
            - Ele foi pego por Theokoles, que é um guerreiro muito experiente, meu filho ainda sente-se inatingível, um sentimento comum de homens jovens, não sei se tenho esperanças de velo novamente, e devo ter um sucessor.
            - Sinto sua dor meu senhor, mas vamos resgatá-lo antes que o levem para ser escravo na capital.
            - Penso em seu filho Nathanael. Ele é um ótimo guerreiro, poucos possuem a habilidade dele com uma lança, devo admitir que, agora, Barca é o mais cotado para meu posto.
            - Não quero que pense nisso Arslan – Ambos se entreolharam sérios, Nathanael não o chamava pelo nome desde que ele assumira o posto de cã da tribo, mas agora ele falava como amigo, e não como homem de confiança. – Devemos manter nosso foco e caçar Theokoles até o os confins da terra, temos excelentes guerreiros e ainda contamos com nossos aliados, mas não creio que seja necessário.
            A conversa prosseguiu ao longo da noite regava a airag e carne seca para matar a fome, os assuntos variavam entre o sucessor do cã, e planos pra resgatar Tridian. Embriagados pelo airag os dois caíram no sono profundo, para imaginar, em sonho, a morte que haviam prometido para Theokoles e o reencontro com Tridian.
           
            A manhã chegou nublada, com uma fina camada de gelo sobre a planície e uma leve brisa que anunciava a chegada do outono. Os homens de confiança já estavam a organizar os cavaleiros que deveriam partir junto ao cã, todos estavam montados, e com as armas embainhadas e seus arcos presos as celas, aljavas estavam cheias, e apesar de estarem partindo para a batalha, os cavaleiros não estavam excitados com o combate que se aproximava, a caçada a aqueles que levaram Tridian seria longa e o clima era de tristeza. Arslan saiu de sua iurta e um homem já esperava com seu cavalo celado, Nathanael aguardava ao lado.
            - Estamos prontos senhor.
            Arslan fixou os olhos em Nathanael e sentiu uma explosão de sentimentos lhe motivando a partir em busca de seu filho, observou a expressão dos cavaleiros já em formação e avistou até Borte, sua filha, com uma suas arqueiras montadas já prontas para partir então, sacou sua espada e levantou-a sobre a cabeça exclamando:
            - Recuperemos nossos familiares capturados, vingaremos as mortes, faremos Theokoles e seus homens sentirem a terra tremer com a nossa chegada, que eles nos temam!
            Os homens explodiram em satisfação ao ver seu cã motivado a lutar, em instantes as expressões tristonhas e frias se transformaram em expressões de cavaleiros que lutariam até a morte pela sua tribo. Arslan montou seu cavalo e olhou novamente para Nathanael, com um sorriso disfarçado que apenas ele percebera, o cã cavalgou na direção de seus homens, erguendo novamente a espada e gritando para que toda a tribo ouvisse:
            - Que comece a caçada!

            Os primeiros indícios do inverno começaram a surgir, e os homens que cavalgavam junto a Arslan já estavam perdendo as esperanças de recuperar o filho do cã antes que ele fosse levado para a capital. A determinação de Arslan era monstruosa, apesar de terem se movido sem rumo até agora, apenas buscando um rastro dos homens de Theokoles, Nathanael compreendia o cã e sua necessidade de possuir um sucessor que ele confiava.
            Arslan estava sentando perto a fogueira na frente de sua iurta, e o primeiro homem de confiança resolvera se aproximar, para desvendar a expressão séria e pensativa de seu cã
            - No que pensa irmão? – Arslan e Nathanael não eram irmãos de sangue, mas amigos de longa data, e um nunca deixaria o outro em meio a vastidão das planícies geladas, tornaram-se irmãos por condição e ambos eram filhos das planícies.
            - Sabe Nathanael, creio que Theokoles já tenha levado meu filho até a capital em uma hora dessas.
            - Estamos cavalgando há semanas senhor, e sequer achamos um rastro daqueles porcos, mas creio que não devemos estar longe, eles sabem se esconder.
            Arslan assentiu ainda preocupado com a situação de seu filho, neste momento tinha apenas uma coisa em mente, faria Theokoles sangrar.

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Um Novo Dia

Bebia. Observando, sem prestar muita atenção, naqueles que se aventuravam do lado de fora em meio à fina garoa que lhe parecia cair em câmera lenta, através da pequena janela de vidro, encrostada pela banha que alimentava o fogo dos candelabros e embaçada pelo calor fétido do interior da taverna. Entre um gole e outro, pensava. Assuntos que só ele compreendia. Em um momento pensou em que vida estava levando, nas oportunidades que havia deixado de lado. Estava bêbado.           
Sentia que nada poderia lhe comover naquela noite. Estava a parte daquele mundo.
            - Filhos da puta! – Escutou de um canto próximo ao balcão. Com a visão embaçada pelo álcool virou-se para apreciar mais um lamentável espetáculo diário, típico das tavernas daquela redondeza. Um anão empurrava um elfo enquanto um outro tentava golpear-lhe a cabeça e um terceiro ria em um canto próximo ao balcão. Estavam embriagados – pensou. No fervor do patético confronto, o taberneiro, desesperado, tentava controlar a confusão.
            Cansado, secou a jarra num talagaço e levantou-se. Estava saturado daquilo. Caminhou em passos desordenados até a porta que levava as ruas. Sentindo o frio no rosto, ajeitou-se nos trajes e vestiu o capuz da capa, encorajou-se a seguir seu rumo. Esgueirou-se pelas ruas, entrou em vielas e escondeu-se nas sombras. Gostava. Aquilo parecia algo natural, algo que já havia nascido com ele, mas da onde? Chegou a seu reduto. Uma pequena torre de pedra, abandonada, não poderia ser confortável, mas era seu lar. Entrou.
            Livros, ferramentas, artefatos, cordas, e outras centenas de objetos estavam reunidos em uma grande parafernália nas dezenas de estantes espalhadas pelas paredes da torre. O ambiente era pequeno e rústico, o chão maltrapilho de pedras de mármores baratas era envolvido por uma mistura de musgo e areia. Uma pequena mesa, sobreposta em um tapete que há anos já mostrava as marcas do tempo, abrigava outra diversidade de objetos estava postada ao centro da pequena torre. Uma bagunça.
            Subiu um lance de escadas iluminado por poucas velas que estampavam sua sombra nas paredes do ambiente tosco. Deitou-se sobre pedaços de couro no chão do segundo andar da torre, sentia os olhos pesados, embalados pelo sono típico de uma bebedeira que se passava. Os devaneios insistiam em surgir em sua mente e, ainda meio bêbado, olhou para a pequena estante em frente ao leito. Aquela, não abrigava dezenas de objetos como às demais, apenas um punhado, cuidadosamente selecionados por ele mesmo. Tinham valor; Valor emocional. Cada um daqueles artefatos lhe trazia alguma memória, era o que ele tinha. Dormiu.
            O sol atingia-lhe o rosto, forçando-o a acordar. Percebeu que havia dormido com a roupa que passara o dia e levantou-se sem nenhum sintoma de ressaca da noite passada. Caminhou até a estante que observara antes de pegar no sono e colheu três objetos. Um anel de prata, típico dos anões, que segundo ele mesmo era pertencido por sua mãe, e postou-o em meio à trança que possuía na barba. Um florete que lhe recordava seu pai, um comerciante malsucedido, que ao longo dos anos perdeu tudo o que havia conquistado. E por fim, um pequeno estojo com algumas ferramentas típicas dos lados ladinos.
            Olhou pela pequena abertura na parede de pedra da torre. A claridade lhe doía nos olhos. Colocou a cabeça para fora e escarrou uma goma seca que há tempos emaranhava-se nos pulmões. Sem sucesso, cutucou os bolsos procurando por cigarros. Um novo dia começava. O que seria naquele dia? Ajeitou os objetos apanhados consigo, remexeu-se para colocar a capa no lugar e voltou a observar a rua. Lembrou-se dos elfos na taverna na noite passada. Naquele dia, seria um. Deu um gole no cantil sentindo o gosto amargo do whiskey, limpou a boca grosseiramente usando o antebraço. Transmutou-se e saiu. Um novo dia começara.

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O Velho

Representação ilustrada de o Velho do conto Caravana por Lucas Graciano

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Caravana

A caravana avançava por dentre as sombras do pequeno bosque que se estendia antes das planices de Taliel. Dentro de uma das carroças, um garoto, que se aproximava da idade adulta, lia, sentado em um pequeno tapete ornamentado que abrigava além dele, uma dezena de outros livros. Iluminado apenas por uma vela que parecia derreter no mesmo ritmo em que ele se deleitava nas palavras e imaginava, além de onde sua caravana poderia lhe levar. No lado oposto ao garoto, seu irmão dormia em um simples colchonete no chão da carroça. Este, alguns anos mais velho que ele, havia se tornado tudo o que seu pai sempre sonhou, curiosamente, era exatamente seu constraste.
             Naquele momento, desprendeu a atenção dos livros e por um instante olhou o irmão. A barba rala se espalhava pelo rosto. Ele parecia dormir embalado pelo chacoalhar causado pelos pôneis que tracionavam a carroça. Era frágil – pensou. Mas como? Era tão implacável empunhando uma espada ou uma lança, não temia ninguém. Invejou o irmão, sabendo que aquela era uma habilidade apreciada por seu pai. Tornou-se a ler. Após poucas páginas, resolveu deitar-se e apreciar aquela canção de ninar de todas as noites, o choque entre as patas dos pôneis e solo áspero. Assoprou a vela. Um fio de fumaça subiu tomando conta do pequeno ambiente. Deitou-se, e dormiu, como o irmão, ao embalo dos pôneis.
            Acordou em um piscar de olhos, assustado. Olhou ao redor, e sentiu medo. Reconheceu o local. Era o bosque por onde a caravana estava trafegando. Não via ninguém. Não escutava nada. Sentiu-se envolvido pela penumbra gerada pela sombra das árvores projetadas pela luz do luar que adentrava entre uma clareira ou outra. Uma figura humana o transpassou, correndo, e com a espada em mãos. Vestia uma armadura de placas, completa, com exceção do capacete que, por costume ele deixava de lado. O garoto reconheceu a figura, era seu irmão. Respirou fundo, buscando o ar que lhe enchia os pulmões para desferir um grito de chamado ao seu irmão. Gritou. Sua voz pareceu não ecoou. E o irmão seguiu correndo, sem lhe dar atenção, sumindo em meio a penumbra. Estava mudo.
            O desesperou tomou sua mente. Seu coração não lhe guiava mais, característica que sempre lhe foi marcante. Não achou lógica naquilo, não sabia para aonde ir. Ajoelhou-se e chorou sentindo-se incapacitado, inútil, perdido. O ambiente transmutou-se. Em um piscar de olhos as arvores haviam sumido. A bruma que antes rala, tomou conta de tudo o que havia ao seu redor. A penumbra permanecia acompanhada pela lua que seguia sob sua cabeça. A grama, tomada pela terra, tornou-se inexistente. O chão havia se transformado em algo que lhe pareceu uma continuação do céu, com estrelas, planetas, e galáxias. Sentiu-se flutuando, sem voar. Levantou-se em meio à bruma sustentada pelo ambiente espacial, deu alguns passos e um grande carvalho apareceu em meio aquela psicodelia.
            Caminhou até o carvalho. Era gigantesco. Maior do que lhe pareceu à primeira vista. Viu que suplantados em meio aos galhos do colossal carvalho, haviam algumas estrelas e planetas. Olhou ao pé do carvalho. Uma figura humana ali estava. Sentado sob as raízes da arvore titânica, sustentava em frente à boca, com uma mão, um cachimbo de madeira, entalhado por algumas runas que ele não soube decifrar. Com a outra mão postada em meio à barba, uma vez ou outra, a levava a um pequeno saco, cuidadosamente colocado ao seu lado, a fim de buscar um punhado de frutas secas e levá-las até a boca. A longa barba cinzenta estendia-se até a altura do umbigo. Vestia uma túnica verde-musgo e um chapéu de mesma cor, com longas abas e bico pontudo, típico dos magos. Um cajado rústico de madeira estava escorado ao no tronco, ao seu lado. Era tudo tão místico, tão surreal.
            - Bem vindo jovem. – O velho disse, sem tirar a atenção do cachimbo.
Lembrou-se que não havia conseguido falar, mas mesmo assim, tentou pronunciar algumas palavras sem sucesso.
            - Percebo que está assustado. Não fique assim. Apenas olhe ao seu redor. – Outras arvores, que como ele e o carvalho, pareciam flutuar no espaço. Era o bosque.
Em meio ao bosque, surgiu novamente a figura de seu irmão, desta vez lutando contra alguns duentes que lhe pareciam pregar algumas peças. Não sabia o que sentir naquele momento. O velho tornou a falar.
            - Não tente ser o que seu irmão é. Nem todos são iguais. Valorize o que você tem de especial. Faça o que gosta, e será inigualável nesta arte.

            Acordou. Sua roupa estampava os reflexos do sonho que havia tido, empapada pelo suor típico de um pesadelo. Mas aquele não era um. Estranhou, aquilo fora tão real, lhe refletiu muitos sentimentos. E o velho, porque havia lhe dito aquilo? Resolveu não pensar naquele sonho. Andou até a janela da carroça, puxou para o lado o tecido que cobria-a e olhou para fora. Avistou o bosque. Exatamente igual ao que ele conhecia, e curiosamente idêntico ao sonho, com exceção do carvalho que ali não jazia. O céu era tão claro, iluminado pela lua, que lhe remetia a penumbra e o ambiente espacial. Estranho – pensou.
            Riscou a pederneira, a fim de acender a vela que já não remetia o calor do fogo que queimara anterior mente. A fraca e crepitante luz da vela tomou parte do ambiente, a luz parecia crepitar no mesmo embalo ritmado dos pôneis. Gozou esmerando um breve sorriso com o canto da boca. Tudo remetia aos pôneis, um ritmo tão constante em sua vida, que tudo se adaptava a ele.
            Abriu um livro qualquer. Yggdrasil, a Árvore Cósmica – Leu e avistou o desenho se um grande carvalho que se estendia pelo universo. Estranhou novamente. Voltou a focar-se na leitura. Despertou-lhe interesse. Fora tão real, e tão místico. Queria saber mais.

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