A caravana avançava por dentre as sombras do pequeno bosque que se estendia antes das planices de Taliel. Dentro de uma das carroças, um garoto, que se aproximava da idade adulta, lia, sentado em um pequeno tapete ornamentado que abrigava além dele, uma dezena de outros livros. Iluminado apenas por uma vela que parecia derreter no mesmo ritmo em que ele se deleitava nas palavras e imaginava, além de onde sua caravana poderia lhe levar. No lado oposto ao garoto, seu irmão dormia em um simples colchonete no chão da carroça. Este, alguns anos mais velho que ele, havia se tornado tudo o que seu pai sempre sonhou, curiosamente, era exatamente seu constraste.
Naquele momento, desprendeu a atenção dos livros e por um instante olhou o irmão. A barba rala se espalhava pelo rosto. Ele parecia dormir embalado pelo chacoalhar causado pelos pôneis que tracionavam a carroça. Era frágil – pensou. Mas como? Era tão implacável empunhando uma espada ou uma lança, não temia ninguém. Invejou o irmão, sabendo que aquela era uma habilidade apreciada por seu pai. Tornou-se a ler. Após poucas páginas, resolveu deitar-se e apreciar aquela canção de ninar de todas as noites, o choque entre as patas dos pôneis e solo áspero. Assoprou a vela. Um fio de fumaça subiu tomando conta do pequeno ambiente. Deitou-se, e dormiu, como o irmão, ao embalo dos pôneis.
Acordou em um piscar de olhos, assustado. Olhou ao redor, e sentiu medo. Reconheceu o local. Era o bosque por onde a caravana estava trafegando. Não via ninguém. Não escutava nada. Sentiu-se envolvido pela penumbra gerada pela sombra das árvores projetadas pela luz do luar que adentrava entre uma clareira ou outra. Uma figura humana o transpassou, correndo, e com a espada em mãos. Vestia uma armadura de placas, completa, com exceção do capacete que, por costume ele deixava de lado. O garoto reconheceu a figura, era seu irmão. Respirou fundo, buscando o ar que lhe enchia os pulmões para desferir um grito de chamado ao seu irmão. Gritou. Sua voz pareceu não ecoou. E o irmão seguiu correndo, sem lhe dar atenção, sumindo em meio a penumbra. Estava mudo.
O desesperou tomou sua mente. Seu coração não lhe guiava mais, característica que sempre lhe foi marcante. Não achou lógica naquilo, não sabia para aonde ir. Ajoelhou-se e chorou sentindo-se incapacitado, inútil, perdido. O ambiente transmutou-se. Em um piscar de olhos as arvores haviam sumido. A bruma que antes rala, tomou conta de tudo o que havia ao seu redor. A penumbra permanecia acompanhada pela lua que seguia sob sua cabeça. A grama, tomada pela terra, tornou-se inexistente. O chão havia se transformado em algo que lhe pareceu uma continuação do céu, com estrelas, planetas, e galáxias. Sentiu-se flutuando, sem voar. Levantou-se em meio à bruma sustentada pelo ambiente espacial, deu alguns passos e um grande carvalho apareceu em meio aquela psicodelia.
Caminhou até o carvalho. Era gigantesco. Maior do que lhe pareceu à primeira vista. Viu que suplantados em meio aos galhos do colossal carvalho, haviam algumas estrelas e planetas. Olhou ao pé do carvalho. Uma figura humana ali estava. Sentado sob as raízes da arvore titânica, sustentava em frente à boca, com uma mão, um cachimbo de madeira, entalhado por algumas runas que ele não soube decifrar. Com a outra mão postada em meio à barba, uma vez ou outra, a levava a um pequeno saco, cuidadosamente colocado ao seu lado, a fim de buscar um punhado de frutas secas e levá-las até a boca. A longa barba cinzenta estendia-se até a altura do umbigo. Vestia uma túnica verde-musgo e um chapéu de mesma cor, com longas abas e bico pontudo, típico dos magos. Um cajado rústico de madeira estava escorado ao no tronco, ao seu lado. Era tudo tão místico, tão surreal.
- Bem vindo jovem. – O velho disse, sem tirar a atenção do cachimbo.
Lembrou-se que não havia conseguido falar, mas mesmo assim, tentou pronunciar algumas palavras sem sucesso.
- Percebo que está assustado. Não fique assim. Apenas olhe ao seu redor. – Outras arvores, que como ele e o carvalho, pareciam flutuar no espaço. Era o bosque.
Em meio ao bosque, surgiu novamente a figura de seu irmão, desta vez lutando contra alguns duentes que lhe pareciam pregar algumas peças. Não sabia o que sentir naquele momento. O velho tornou a falar.
- Não tente ser o que seu irmão é. Nem todos são iguais. Valorize o que você tem de especial. Faça o que gosta, e será inigualável nesta arte.
Acordou. Sua roupa estampava os reflexos do sonho que havia tido, empapada pelo suor típico de um pesadelo. Mas aquele não era um. Estranhou, aquilo fora tão real, lhe refletiu muitos sentimentos. E o velho, porque havia lhe dito aquilo? Resolveu não pensar naquele sonho. Andou até a janela da carroça, puxou para o lado o tecido que cobria-a e olhou para fora. Avistou o bosque. Exatamente igual ao que ele conhecia, e curiosamente idêntico ao sonho, com exceção do carvalho que ali não jazia. O céu era tão claro, iluminado pela lua, que lhe remetia a penumbra e o ambiente espacial. Estranho – pensou.
Riscou a pederneira, a fim de acender a vela que já não remetia o calor do fogo que queimara anterior mente. A fraca e crepitante luz da vela tomou parte do ambiente, a luz parecia crepitar no mesmo embalo ritmado dos pôneis. Gozou esmerando um breve sorriso com o canto da boca. Tudo remetia aos pôneis, um ritmo tão constante em sua vida, que tudo se adaptava a ele.
Abriu um livro qualquer. Yggdrasil, a Árvore Cósmica – Leu e avistou o desenho se um grande carvalho que se estendia pelo universo. Estranhou novamente. Voltou a focar-se na leitura. Despertou-lhe interesse. Fora tão real, e tão místico. Queria saber mais.









