Um Novo Dia

Bebia. Observando, sem prestar muita atenção, naqueles que se aventuravam do lado de fora em meio à fina garoa que lhe parecia cair em câmera lenta, através da pequena janela de vidro, encrostada pela banha que alimentava o fogo dos candelabros e embaçada pelo calor fétido do interior da taverna. Entre um gole e outro, pensava. Assuntos que só ele compreendia. Em um momento pensou em que vida estava levando, nas oportunidades que havia deixado de lado. Estava bêbado.           
Sentia que nada poderia lhe comover naquela noite. Estava a parte daquele mundo.
            - Filhos da puta! – Escutou de um canto próximo ao balcão. Com a visão embaçada pelo álcool virou-se para apreciar mais um lamentável espetáculo diário, típico das tavernas daquela redondeza. Um anão empurrava um elfo enquanto um outro tentava golpear-lhe a cabeça e um terceiro ria em um canto próximo ao balcão. Estavam embriagados – pensou. No fervor do patético confronto, o taberneiro, desesperado, tentava controlar a confusão.
            Cansado, secou a jarra num talagaço e levantou-se. Estava saturado daquilo. Caminhou em passos desordenados até a porta que levava as ruas. Sentindo o frio no rosto, ajeitou-se nos trajes e vestiu o capuz da capa, encorajou-se a seguir seu rumo. Esgueirou-se pelas ruas, entrou em vielas e escondeu-se nas sombras. Gostava. Aquilo parecia algo natural, algo que já havia nascido com ele, mas da onde? Chegou a seu reduto. Uma pequena torre de pedra, abandonada, não poderia ser confortável, mas era seu lar. Entrou.
            Livros, ferramentas, artefatos, cordas, e outras centenas de objetos estavam reunidos em uma grande parafernália nas dezenas de estantes espalhadas pelas paredes da torre. O ambiente era pequeno e rústico, o chão maltrapilho de pedras de mármores baratas era envolvido por uma mistura de musgo e areia. Uma pequena mesa, sobreposta em um tapete que há anos já mostrava as marcas do tempo, abrigava outra diversidade de objetos estava postada ao centro da pequena torre. Uma bagunça.
            Subiu um lance de escadas iluminado por poucas velas que estampavam sua sombra nas paredes do ambiente tosco. Deitou-se sobre pedaços de couro no chão do segundo andar da torre, sentia os olhos pesados, embalados pelo sono típico de uma bebedeira que se passava. Os devaneios insistiam em surgir em sua mente e, ainda meio bêbado, olhou para a pequena estante em frente ao leito. Aquela, não abrigava dezenas de objetos como às demais, apenas um punhado, cuidadosamente selecionados por ele mesmo. Tinham valor; Valor emocional. Cada um daqueles artefatos lhe trazia alguma memória, era o que ele tinha. Dormiu.
            O sol atingia-lhe o rosto, forçando-o a acordar. Percebeu que havia dormido com a roupa que passara o dia e levantou-se sem nenhum sintoma de ressaca da noite passada. Caminhou até a estante que observara antes de pegar no sono e colheu três objetos. Um anel de prata, típico dos anões, que segundo ele mesmo era pertencido por sua mãe, e postou-o em meio à trança que possuía na barba. Um florete que lhe recordava seu pai, um comerciante malsucedido, que ao longo dos anos perdeu tudo o que havia conquistado. E por fim, um pequeno estojo com algumas ferramentas típicas dos lados ladinos.
            Olhou pela pequena abertura na parede de pedra da torre. A claridade lhe doía nos olhos. Colocou a cabeça para fora e escarrou uma goma seca que há tempos emaranhava-se nos pulmões. Sem sucesso, cutucou os bolsos procurando por cigarros. Um novo dia começava. O que seria naquele dia? Ajeitou os objetos apanhados consigo, remexeu-se para colocar a capa no lugar e voltou a observar a rua. Lembrou-se dos elfos na taverna na noite passada. Naquele dia, seria um. Deu um gole no cantil sentindo o gosto amargo do whiskey, limpou a boca grosseiramente usando o antebraço. Transmutou-se e saiu. Um novo dia começara.

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