A Notícia - Parte I

Era noite e uma fina garoa caia sobre as planicies, Arslan estava recolhido em sua iurta desfrutando de alguns goles de airag e pensando como defenderia sua tribo desta ameaça que vinha de todos os lados. Escutou cascos de cavalos apeando perto de sua iurta e logo, dois homens entraram pela estreita porta, estavam molhados e esbaforidos, o cansaço era visível em suas expressões, haviam cavalgado por tempo demais sem dar descanso aos cavalos e a si mesmos. Arslan reconhecera os dois homens, como subordinados de seu filho, Tridian, o ar de tensão tomou o pequeno espaço da iurta, sabia que boas notícias não viriam se não de seu próprio descendente retornando de um ataque bem sucedido. Escondeu a tensão em suas expressões, e procurou não mostrar fraqueza na frente de seus homens, mas a ansiedade pela noticia que eles lhe traziam era quase incontrolável. A tensão era tamanha que havia esquecido dos modos de anfitrião, apenas desejava saber o que aqueles homens tinham a lhe dizer.
Enchendo os pulmões de ar, um dos homens buscava fôlego e desejava, sem sucesso escolher as palavras para seu cã, procurando não causar-lhe um ataque de fúria.
- Senhor, sinto em lhe dizer que fomos emboscados, à noite enquanto cavalgávamos a um pequeno acampamento mercenário. Muitos de nós foram mortos pelo combate, outros por orgulho de não ser capturados. Seu filho, meu senhor, Tridian, foi capturado, e levado a capital. Voltamos para lhe trazer esta noticia.
Arslan recebera a noticia como um golpe pelas costas, pegou-se fraquejando em frente os homens, e logo, mais três guerreiros entram na iurta, eram homens de confiança, e logo sentiram a tensão nos olhos do cã, procurou esconder o desespero, e em um instante à raiva havia tomando seu corpo fazendo-o suar e sentir o sangue quente nas veias. Os homens de confiança observavam em silencio e assentiam a raiva do cã, os dois homens permaneciam buscando ar dentro do pequeno e quente ambiente.
- Como foram emboscados? Não é possível, Tridian possui um grande conhecimento em batalha. E estas legiões mercenárias não possuem táticas de batalhas como estas, são homens treinados nas cidades de pedra.
Um dos cavaleiros deu um passo a frente e se aproximou de Arslan, ajoelhou-se em frente ao cã buscando o ar para escolher as palavras novamente.
- Senhor, podemos notar que, estes homens não eram mercenários treinados, eram nosso semelhantes, eram homens das planícies, tenho certeza!
O outro cavaleiro que escapou acrescentou:
- Pude ver claramente um que se parecia com o líder deles, era alto, com cabelos longos e claros, andava de kilt como nós, sem duvida era um guerreiro tribal, assim como nós, senhor.
Arslan tentou buscar na memória a imagem de um homem que se parecia com o descrito, mas não se recordava de nenhum, apenas pensava em vingança e punir aqueles que capturaram seu filho. A raiva nos olhos do cã era tamanha que, até mesmo seus homens de confiança temiam um ataque incontrolável de fúria, Arslan não compreendia como homens das tribos podia atacar seu próprio povo em troca de algumas moedas, eram irmãos, não de sangue, mas estavam ligados pela planície e pelos longos invernos gelados.
- Creio que conheço este guerreiro senhor – Disse Nathanael, um dos homens de confiança. – Acredito que seja Theokoles, o renegado, um poderoso guerreiro que foi expulso de sua tribo por possuir um comportamento inadmissível em meio às famílias. Hoje ele reúne outros desgarrados e se intitula cã destes homens.
Arslan não sabia como reagir senão retalhar a emboscada, ainda sério e com a sua raiva controlada, era esta de umas habilidades do cã, - o controle da raiva – disse:
- Por anos não cativamos rixas entre as tribos e não atacamos outros de nós, mas a guerra veio até nós. Quero que ao amanhecer estejam prontos, pois se necessário cavalgaremos todo o continente atrás de Theokoles, ele saberá como um cã deve agir.
- Estarei ao seu lado meu cã. – Concordou Nathanael.  
- Então permaneça em minha iurta Barca, assim podemos ter uma conversa entre amigos de longa data.
Os outros homens de confiança acompanharam os dois cavaleiros para fora da iurta, adentrando ao frio e a garoa da noite na planície. Nathanael era um homem de idade avançada assim como o cã, mas mesmo assim era um excelente guerreiro, os anos em batalha lhe deram larga habilidade ao brandir espadas e atirar com arcos. Era o primeiro homem de confiança de Arslan, e também um grande amigo.
- Sente-se comigo, creio que também não consiga acreditar na captura de meu filho.
            - Não entendo como Tridian fora capturado, ele não era um leigo em batalhas, já comandava homens e seria cã um dia.
            - Ele foi pego por Theokoles, que é um guerreiro muito experiente, meu filho ainda sente-se inatingível, um sentimento comum de homens jovens, não sei se tenho esperanças de velo novamente, e devo ter um sucessor.
            - Sinto sua dor meu senhor, mas vamos resgatá-lo antes que o levem para ser escravo na capital.
            - Penso em seu filho Nathanael. Ele é um ótimo guerreiro, poucos possuem a habilidade dele com uma lança, devo admitir que, agora, Barca é o mais cotado para meu posto.
            - Não quero que pense nisso Arslan – Ambos se entreolharam sérios, Nathanael não o chamava pelo nome desde que ele assumira o posto de cã da tribo, mas agora ele falava como amigo, e não como homem de confiança. – Devemos manter nosso foco e caçar Theokoles até o os confins da terra, temos excelentes guerreiros e ainda contamos com nossos aliados, mas não creio que seja necessário.
            A conversa prosseguiu ao longo da noite regava a airag e carne seca para matar a fome, os assuntos variavam entre o sucessor do cã, e planos pra resgatar Tridian. Embriagados pelo airag os dois caíram no sono profundo, para imaginar, em sonho, a morte que haviam prometido para Theokoles e o reencontro com Tridian.
           
            A manhã chegou nublada, com uma fina camada de gelo sobre a planície e uma leve brisa que anunciava a chegada do outono. Os homens de confiança já estavam a organizar os cavaleiros que deveriam partir junto ao cã, todos estavam montados, e com as armas embainhadas e seus arcos presos as celas, aljavas estavam cheias, e apesar de estarem partindo para a batalha, os cavaleiros não estavam excitados com o combate que se aproximava, a caçada a aqueles que levaram Tridian seria longa e o clima era de tristeza. Arslan saiu de sua iurta e um homem já esperava com seu cavalo celado, Nathanael aguardava ao lado.
            - Estamos prontos senhor.
            Arslan fixou os olhos em Nathanael e sentiu uma explosão de sentimentos lhe motivando a partir em busca de seu filho, observou a expressão dos cavaleiros já em formação e avistou até Borte, sua filha, com uma suas arqueiras montadas já prontas para partir então, sacou sua espada e levantou-a sobre a cabeça exclamando:
            - Recuperemos nossos familiares capturados, vingaremos as mortes, faremos Theokoles e seus homens sentirem a terra tremer com a nossa chegada, que eles nos temam!
            Os homens explodiram em satisfação ao ver seu cã motivado a lutar, em instantes as expressões tristonhas e frias se transformaram em expressões de cavaleiros que lutariam até a morte pela sua tribo. Arslan montou seu cavalo e olhou novamente para Nathanael, com um sorriso disfarçado que apenas ele percebera, o cã cavalgou na direção de seus homens, erguendo novamente a espada e gritando para que toda a tribo ouvisse:
            - Que comece a caçada!

            Os primeiros indícios do inverno começaram a surgir, e os homens que cavalgavam junto a Arslan já estavam perdendo as esperanças de recuperar o filho do cã antes que ele fosse levado para a capital. A determinação de Arslan era monstruosa, apesar de terem se movido sem rumo até agora, apenas buscando um rastro dos homens de Theokoles, Nathanael compreendia o cã e sua necessidade de possuir um sucessor que ele confiava.
            Arslan estava sentando perto a fogueira na frente de sua iurta, e o primeiro homem de confiança resolvera se aproximar, para desvendar a expressão séria e pensativa de seu cã
            - No que pensa irmão? – Arslan e Nathanael não eram irmãos de sangue, mas amigos de longa data, e um nunca deixaria o outro em meio a vastidão das planícies geladas, tornaram-se irmãos por condição e ambos eram filhos das planícies.
            - Sabe Nathanael, creio que Theokoles já tenha levado meu filho até a capital em uma hora dessas.
            - Estamos cavalgando há semanas senhor, e sequer achamos um rastro daqueles porcos, mas creio que não devemos estar longe, eles sabem se esconder.
            Arslan assentiu ainda preocupado com a situação de seu filho, neste momento tinha apenas uma coisa em mente, faria Theokoles sangrar.

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