Espelunca


A gota de suor lhe escorria pela testa, acumulando-se na sobrancelha e pingando na já empapada gola da camisa. Calor insuportável. As janelas apenas permitiam a entrada do bafo quente e claro, do cheiro de bosta dos cavalos dos homens que ali estava. Era o buteco mais bagaceiro da região, sem dúvidas. Miseráveis, putas e putas miseráveis. Ambiente tosco, cafona, uma típica espelunca.
O dono do estabelecimento era um homem, chegando à casa dos sessenta anos, barba falha, meio grisalha e por fazer. A expressão era cansada, parecia estar ali há mais tempo que poderia suportar. Era nojento. Não gostava de nada e é claro, ninguém. Abria o buteco só por abrir, era melhor do que ficar em casa aturando a velha, assim chamava sua esposa.
A portinhola rangeu. Entrou no buteco a passos firmes. Chamou atenção. Grande merda pensou o dono, mais um corno, e de fato era. O homem se aproximou do balcão onde o taberneiro estava apoiado. Pediu uma pinga. Da amarela, não da branca. Barata, é claro. O copo fora enchido até a metade, mal limpo, com marca de batom de uma vagabunda qualquer. Não importava, mandou um talagaço.
- Que merda.
- Como de costume, não? – Interpelou o taberneiro.
- Claro que não. Eu era feliz, até aquela cadela me trair. Peguei os dois hoje. Filhos da puta.
- E fez o que? – O dono olhava para ele com a cabeça baixa, organizando os copos e com a mão enrolada em um trapo em que ele secava os mesmo.
- Nada, deixei os dois lá, que se fodam.
- Corno manso.
- Te fuder também, filho da puta! – Enfiou a mão no bolso da calça e sacou uma nota amassada. Bateu com a mão no balcão, largando a nota. Levantou-se de maneira a derrubar a banqueta que estava sentando. Novamente chamou atenção, virou as costas e andou em direção a portinhola, com os mesmos passos firmes. Antes de sair, duas putas que ouviram a histórias mexerem com ele. Bufou de raiva e nada fez. Foi embora.
O taberneiro não demonstrou expressão, seguiu acariciando os copos com trapo úmido que já nada secava. Uma nova onda de mormaço entrou pelas aberturas da espelunca. Fez a portinhola se mover, rangendo.
- Belo show, hein? – Perguntou um individuo, já com a gola empapada de suor, sentado em uma extremidade do balcão, que outrora observara.
- Mais um corno. – O dono soltou o trapo úmido e estendeu o braço a fim de buscar a nota amassada que o corno ali havia deixado. Desamassou-a com toda a calma do mundo. Dois pila. Seu trabalho por ali estava feito. E a banqueta, no chão. 

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