Viela

Corria. Era tarde da noite. Ele cortava as sobras, entrava em algumas vielas. Esquerda, esquerda, direita, esquerda, tomava aquelas direções com destreza. Não seria pego, não naquela noite, a Lua estava bela de mais para isso, e ele, não estava embriagado o suficiente, também não havia preparado as palavras que citaria se pego, definitivamente, não seria aquela noite. Decidiu, como quem tem a certeza do futuro.
Fora golpeado. Do chão, escutou uma breve e satírica garalhada. Desejou que o infeliz que lhe derrubou se engaçasse com a risada e caísse morto ali mesmo para dar de comer aos ratos. Tentou se levantar. Fora interrompido. Havia sido golpeado novamente, desta vez por um ponta pé, nas costelas. Tombou. Cuspiu ao lado, com raiva. Percebeu que um fio de sangue escorria pelo nariz. Olhou pela sombra do capuz, e avistou o brutamontes que lhe havia interrompido. Estava cuidado dos negócios. Não poderia ser interrompido daquela maneira.
Buscou a velha adaga, entalhada por algumas runas que ele jamais entendera. Era de prata. Roubada é lógico. Estava escondida na bota, sacou-a de maneira sagaz, e em um único movimento de saque e avanço, deu um giro, dando as costas ao adversário. Acetou-lhe com a empunhadura da adaga no nariz. Ouviu o cleck dos ossos sendo esmagados, uma bela fratura, sem dúvidas. O mesmo tentou lhe golpear pela terceira vez com uma cotovelada tosca. Fora em vão. A adaga já havia perfurado seu pescoço, logo a cima do ombro. Caiu com o corpo mole do chão.
Observou a face do adversário outrora vivo. Transmutou-se, adquiriu a face rude e barbuda do defunto. Ajeitou-se nos trajes. Sacolejou-se afim de tirar a poeira da capa. Olhou pra trás e viu as sombras se projetando na parede, geradas pela luz crepitante provinda das tochas. Era hora de seguir seu rumo, não seria pego, não naquela noite.

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