Iludido, ou a metáfora dos fósforos


Ele guardava os palitos usados
Dentro da caixa de fósforos
Não gostava de distinguir
Os vivos dos mortos



Denis Axelrud Saffer

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Natureza

Muitas pessoas fascinam-se com belos retratos da natura. Um por do sol, um vale, uma cascata, e por ai vai. Sem dúvidas são belas imagens. Porém estas, por sua vez, não me intrigam tanto quanto a natureza cósmica, esta sim me deixa maluco. Apenas a ideia de que estou olhando para algo desconhecido, me deixa intrigado. Um vale ou um por do sol, são legais, mas quando olho para uma imagem de um galaxia, o sentimento é outro, imagine quantos vales, quantos pores do sol. Há incontatáveis possibilidades em cada um daqueles milhares e singelos pontos de luz, talvez estejamos olhando para algum que até abrigue vida. E mais longe ainda, talvez estejamos sendo observados com o mesmo entusiasmo em que observamos, é simplesmente fascinante. 

A natureza Terrestre também é unica, formas de vida que exitem, deixaram de existir ou ainda estão por vir são únicas. É quase um milagre no universo. Mas mirando uma imagem do espaço, é ver a natureza acontecer e de maneira única, em todo o cosmo. É ver o tão singulares e ao mesmo tempo pequenos somos, talvez não estejamos a sós, mas somos uma forma de vida única.


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Fênix

Blam! Foi o barulho na batida da porta dupla da entrada da sala de emergência. O médico responsável por aquele turno não estava nem aí, fumava uma cigarrilha com o canto da boca e tomava um café, preto, passado.
Coitado do paciente.
O cara que empurrava a maca estava desesperado, era claro, sua expressão não dizia outra coisa.
- Vamos doutor, vamos! Temos que reviver o bixo!
- Qual o caso? - Levantou-se da cadeira e deixou a cigarrilha no cinzeiro o café, iria esfriar.
- Não sei, só busquei com a ambulância, parece que foi parada cardíaca, sei lá.
- Manda o desfibrilador ai, vamos fazer a magia acontecer.

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Head Hunters

Mais uma bela produção do canal Corridor Digital. Os cara se superam a cada vídeo, sensacionais os efeitos e a edição, dá de dez em muita novelinha de televisão! Assistam!

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Nojo, moralidade e preconceito


Se você sentir um cheiro forte de fezes logo após entrar em um banheiro público, você provavelmente sentirá nojo. De maneira semelhante, se você ouvir uma história sobre um caso de pedofilia, é provável que você também sinta, em algum nível, nojo. Esta emoção poderia eliciar em você um padrão de expressão facial muito parecido com o que a maioria das pessoas ao redor do mundo exibiria: seu lábio superior levantaria, seu nariz se enrugaria, suas pálpebras levantariam e suas sobrancelhas abaixariam [1] – a famosa “cara de nojinho.” Em sua forma mais aguda, este estado mental de nojo poderia vir acompanhado de náuseas e vômitos.
O nojo é uma emoção primitiva, observada em diversas espécies, que nos motiva a evitar ou se distanciar de um objeto, como um peixe morto apodrecendo. O objeto não precisa estar presente, já que apenas pensar naquele objeto também pode eliciar o nojo. Esta emoção provavelmente foi selecionada em nosso passado evolutivo para evitar a ingestão de substâncias danosas ao organismo [2], pois saber qual alimento você não deveria comer, por exemplo, poderia fazer toda a diferença, já que uma intoxicação poderia ser fatal.
Os processos de evolução biológica e cultural propiciaram as condições básicas para que nosso sistema de avaliação cognitiva passasse a ser usado para avaliar não apenas alimentos e substâncias possivelmente danosas, mas também grupos sociais, pensamentos e ações das pessoas com as quais convivemos. Se você parar para pensar sobre isso, vai perceber que fazemos frequentemente este uso ao julgarmos as outras pessoas. Um pedófilo, por exemplo, é avaliado por muitos como uma pessoa nojenta e repulsiva, assim como um político rico que desvia grandes quantidades de verbas – ambos estariam fazendo não apenas coisas erradas, mas coisas nojentas. Existem inclusive evidências de que sentir o nojo gustativo e o nojo moral eliciam expressões faciais semelhantes de nojo, com a ativação da mesma musculatura na face [2].
Muitos pesquisadores têm buscado compreender se a emoção de nojo serve como base para os nossos julgamentos morais. Para muitos deles, estes sentimentos viscerais (gut feelings), uma vez ativados, guiam muitas das nossas intuições e ações morais de maneira automática e inconsciente. No cotidiano, as nossas intuições morais seriam, muitas vezes, mais utilizados do que o nosso raciocínio moral para guiar nossos julgamentos, e tais intuições morais estariam intimamente relacionadas a estes sentimentos viscerais. Muitas evidências dão suporte para esta proposta [2, 3, 4, 5, 6]. Nestes estudos, encontrou-se que a indução do nojo tornou os participantes mais propícios a fazerem julgamentos morais severos, a se posicionarem como mais conservadores e a expressarem avaliações mais preconceituosos.
Entretanto, a influência que o nojo tem no julgamento moral varia entre as pessoas. Esta sensitividade individual ao nojo tem se mostrado uma importante variável para entender a influência desta emoção [5, 6]. Por exemplo, em um estudo [5], pessoas mais sensíveis ao nojo demonstraram avaliações morais intuitivas mais negativas em relação a homossexuais, porém quando foram questionados explicitamente sobre quão desaprovável moralmente seria uma demonstração pública de afeto (e.g. beijo) entre um casal homossexual, a sensitividade ao nojo dos participantes não se associou ao seu julgamento moral. Em um segundo estudo, este mesmo grupo de pesquisadores encontrou que, utilizando uma medida implícita da avaliação dos participantes em relação a homossexuais, indivíduos com maior sensitividade ao nojo apresentaram uma associação implícita mais negativa em relação a homossexuais. Estes dois estudos indicam que a sensitividade individual ao nojo torna as pessoas mais propícias a acharem intuitivamente “errados” alguns aspectos relacionados a homossexualidade, mas tais intuições podem ser mascaradas ou sobrepujadas por julgamentos explícitos e deliberados –  ao menos para as amostras destes estudos, normalmente estudantes universitários americanos. Entretanto, embora tais intuições possam ser mascaradas em um determinado momento, elas podem influenciar de maneira decisiva o comportamento espontâneo e cotidiano das pessoas.
Outro destes estudos contava com duas condições [6]: em uma delas (condição de priming), um odor desagradável era liberado no laboratório assim que os participantes chegavam; na outra (condição controle), nenhum odor era inserido. Na primeira condição, os participantes demonstraram maior preconceito em relação a homossexuais do que os participantes na outra condição. O curioso é que a diferença na avaliação dos participantes só foi observada para o grupo social de homossexuais do sexo masculino, mas não para outros grupos como americanos africanos ou idosos, como seria esperado se o nojo tivesse um efeito mais geral no preconceito dos participantes (no estudo, não encontrou-se uma diferença significativa na avaliação de lésbicas, mas em uma replicação do estudo foi encontrada tal diferença para este grupo também). Os autores ressaltaram que este resultado é coerente com o apelo retórico associado ao nojo que comumente é usado por indivíduos que são contra a homossexualidade.
Por se tratar de uma das emoções mais poderosas e primitivas da nossa espécie e considerando o seu papel nos nossos julgamento morais evidenciado por estes estudos, não é de se admirar que seja tão difícil para algumas pessoas, especialmente as mais sensitivas ao nojo, julgar alguns grupos sociais a partir de outra perspectiva menos preconceituosa. Se você tem nojo de algo ou de algum grupo, sua resposta quase automática é a de se afastar ou repelir o objeto de avaliação, de maneira semelhante à repulsa que você sentiria por uma substância danosa ou tóxica. Mas o que as pesquisas em psicologia social também têm indicado é que mesmo avaliações negativas tão fortes, como as associadas ao nojo, podem ser alteradas por meio de estratégias relativamente simples, como propõe a teoria do contato intergrupal [7].

Referências:

[1] Ekman, P. & Friesen, W. V. (2003). Unmasking the face: A guide to recognizing emotions from facial clues. Cambridge, Ma: Malor Books
[2] Chapman HA, Kim DA, Susskind JM, & Anderson AK (2009). In bad taste: Evidence for the oral origins of moral disgust. Science (New York, N.Y.), 323 (5918), 1222-6 PMID: 19251631
[3] Schnall S, Haidt J, Clore GL, & Jordan AH (2008). Disgust as embodied moral judgment. Personality & social psychology bulletin, 34 (8), 1096-109 PMID: 18505801
[4] Smith KB, Oxley D, Hibbing MV, Alford JR, & Hibbing JR (2011). Disgust sensitivity and the neurophysiology of left-right political orientations. PloS one, 6 (10) PMID: 22039415
[5] Inbar Y, Pizarro DA, Knobe J, & Bloom P (2009). Disgust sensitivity predicts intuitive disapproval of gays. Emotion (Washington, D.C.), 9 (3), 435-9 PMID: 19485621
[6] Inbar Y, Pizarro DA, & Bloom P (2012). Disgusting smells cause decreased liking of gay men. Emotion (Washington, D.C.), 12 (1), 23-7 PMID: 21707161
[7] Pettigrew TF, & Tropp LR (2006). A meta-analytic test of intergroup contact theory.Journal of personality and social psychology, 90 (5), 751-83 PMID: 16737372

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O que significa pensar livremente


As diversas visões pró-estado são dominantes na grande maioria na sociedade, sobretudo em nível universitário, embora essas mesmas pessoas, sobretudo universitários, não confiem em políticos e burocratas. Apenas essa contradição resume toda a discussão sobre educação que deve ser vislumbrada no século XXI.
Qualquer ato estatal é um ato obrigatório, ou um ato que tente obrigar toda a sociedade a agir desta ou daquela maneira. Mesmo quando não são leis, o estado nada pode fazer sem o dinheiro de alguém, e este dinheiro é tomado à força do “contribuinte” (outra contradição flagrante, esta semântica). Após o absolutismo e a inauguração do estado moderno pareceu natural olhar para a História como uma eterna sucessão de estados gigantescos (via de regra confundindo autoritarismo com totalitarismo e com absolutismo), tornando o dirigismo estatal contemporâneo algo “natural”, quando deveria ser encarado como uma das maiores estranhezas do Ocidente.
A história do Ocidente é a história do descobrimento do indivíduo. Por outro lado, esse indivíduo é geralmente descoberto sob um ar sufocante de planificação massificada guiada por um pequeno grupo que, com poucas premissas, quer consertar algum defeito estatístico da humanidade, sem atentar para todas as consequências negativas que seu centralismo inevitavelmente acarretará.
A educação, hoje, é tida como o grande motor de melhoria da sociedade. Não é entendida como um mecanismo de mudanças, e sim, necessariamente, demelhorias – como se fosse impossível aprender coisas ruins na vida. Graças a este erro de cálculo, até mesmo pessoas que recuam de pavor a qualquer dirigismo burocrático ainda acatam de braços abertos mecanismos de centralização no que tange à educação. Quando se trata de fazer com que todas as pessoas tenham uma base comum de educação (todos saberem ler e fazerem contas), já soa mais palatável a ideia de obrigar toda pessoa a ter uma carga de conhecimento padronizada via estatal.
Pulando a discussão sobre os níveis mais básicos de ensino (nem é preciso citar os resultados do homeschooling e de tantas outras medidas para tal), surpreende que os lugares-comuns dominem mesmo a discussão superior – como se fazer ciência e pesquisas livres fosse mais adequado sob ditames padronizados pelo MEC. Daí que, mais uma vez em contradição, surge o apelo por “regulamentação” de profissões exigindo cursos inúteis, que demandam tempo e dinheiro de profissionais já gabaritados, a um só tempo em que setores progressistas preguem uma educação “livre” do mercado (na prática, apenas fazem sua tradicional e jeca reserva de mercado).
Ao voltar no tempo e olhar para a Idade Média, quando as universidades surgiram, vemos que os cursos superiores, tutelados geralmente mais pela igreja do que por estados paupérrimos, tinham cursos voltados apenas para as profissões sem as quais o grau civilizatório de uma cidade medieval europeia decairia em absoluto: a teologia, o direito canônico e a medicina. A educação preparatória não era dirigida pelo estado: as escolas ensinavam as artes liberais, ou aquela riqueza cultural do Ocidente que faria com que qualquer um, independentemente da futura profissão, aprendesse a viver, ficando o ensinamento não liberal e técnico para as corporações de ofício (as guildas).
Primeiramente havia o Trivium, descrito por Pedro Abelardo como os três componentes da ciência da linguagem: a lógica, a gramática e a retórica. Como descritos por Hugo de São Vítor (1096-1141) no Didascálion, “a gramática é a ciência de falar sem erro. A dialética [rebatizada de lógica após a redescoberta da “nova lógica” de Aristóteles no séc. XII] é a disputa aguda que distingue o verdadeiro do falso. A retórica é a disciplina para persuadir sobre tudo o que for convincente”. Vencida a etapa da mente (o estudante chegava à escola já com 14 anos, tardíssimo para padrões modernos), poderia encarar o Quadrivium, o conhecimento do mundo e das coisas: aritmética, música, geometria e astronomia.
Não deixa de ser doloroso ouvir protestos contra o “sucateamento do ensino” justamente daqueles que mais lutam para destruir a educação livre: os que defendem um planejamento central e controle estatal da educação, insistindo que o modelo que mais destruiu nossa capacidade de entender a lógica dos fatos ainda pode funcionar, desde sejam seus asseclas que o dominem. Assim garantem que a própria ideia de educação seja destruída, não mais sendo entendida como ex ducare, ou seja, tirar o sujeito das trevas e lhe apresentar o mundo. Pelo contrário: ao invés de usarem a força coercitiva e obrigatória do estado para ensinar os rebentos como pensar, usam tal poder astronômico para entuxar-lhes o que pensar goela abaixo.
O caso é grave, e passado de professor a aluno: sem conhecimento de lógica e entendimento causal – o consecutio temporum – no ensino superior, confundem o próprio título superior com o que sabem – passando assim a seus alunos uma cartilha ideologizada e mastigada que é recebida como o supra sumo do entendimento humano. Em cursos de ciências humanas grita-se contra as “forças de mercado” ou outras quimeras que podem acabar com o dirigismo da educação não por buscarem uma educação livre – e sim porque, ensinado a como pensar, o aluno dificilmente cairia nos mesmos erros platiformes em que incorreram tantos pensadores modernos que foram os pais da inanição econômica, do totalitarismo brutal do século do genocídio estatal ou, em menor escala, do financiamento de burocratas – sem nunca se perguntar, por causa e consequência, de onde viria tal dinheiro.
O liberalismo surgiu de uma educação liberal: não deixa de ser curioso que, ao se entender o comportamento econômico em qualquer lugar, tantos tenham chegado às mesmas conclusões em épocas tão diversas, seja a Escola de Salamanca ou uma romancista russa como Ayn Rand, que não deveria conhecê-la. Já as doutrinas que consigam defender atuação estatal econômica e política não surgem do encadeamento de pensamento: são ideologias que precisam ser passadas de geração em geração, sem discussão de premissas e consequências imprevistas. O pensamento liberal contemporâneo deve voltar às suas origens pré-econômicas para expandir sua atuação, redescobrindo o indivíduo sob o império do estado.
Enquanto buscam corrigir a sociedade e seus erros através da educação, na prática apenas transformam a educação em promoção social, produzindo diplomas e controlando profissões e pensamentos. Enquanto acreditam lutar contra o mercado, apenas impedem a diversidade de atividade e monopolizam uma fatia de ideias e de profissões para quem for mancomunado com o sistema.
A liberdade na educação fatalmente concluirá ser vantajoso lutar contra seus próprios grilhões.
(Cf. O Trivium – As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica, da Irmã Miriam Joseph, organizado e traduzido por Henrique Paul Dmyterko, Editora É Realizações)

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A Homofobia

Estive, nos últimos dias, pensando sobre a homofobia. Esta, por sua vez, vem sendo criminalizada em diversos países, o Brasil incluso, afim de extingui-la como uma mal social, que de fato é. Gostaria antes de lhes compartilhar o raciocínio demonstrar minha posição quando a causa homossexual: Não há motivos para aversão a esta. Sou apoio as políticas favoráveis aos 'direitos' dos homossexuais e simpatizantes.
Minha critica sobre a criminalização da homofobia vem apoiada em dois fatores. O primeiro, e creio que menos grave, é o seguinte: O que é a homofobia? Se formos analisa-la como palavra, temos homo, que no latim significa homem, mas a aplicação neste contexto se dá ao pseudoprefixo de homossexual e temos fobia, do grego, aversão ou medo. O significado global da palavra significa 'aversão ao homossexual', o que condiz com a pratica real. O problema é: Uma fobia, assim como é classificada é um distúrbio psicológico, que por sua vez, não é uma atitude natural humana e sendo assim vem acompanhada de sintomas, estes sim devem ser tratados e não criminalizados.
O segundo ponto é o ato de criminalizar. Possuímos exemplos diários de que a criminalização não leva a solução do problema, assim como no tráfico de drogas ou até mesmo dirigir acima do limite de velocidade. Então, qual é o sentido de proibir uma fobia, um distúrbio? Isto não vai impedir que as pessoas deixem de tê-lo e por consequência agir de maneira inaceitável perante os homossexuais. O grande beneficiado disto tudo, são os burocratas estatais que se dizem favoráveis a causa homossexual porem legislam de maneira ínfima ao problema real e saem como grandes defensores da mesma.
De fato, eu acredito na educação. Acho que a melhor reparação para a homofobia é a educação das pessoas quanto ao fato. A homossexualidade não é anormal e ou inatural é algo existente e precisa ser tratado como. A criminalização não soluciona o problema, que tal, tentar ensinar as pessoas e educa-las a tratar a homossexualidade como fato natural, só assim teremos a erradicação do problema. Cabe a nós, educarmos e mostrar aos legisladores que a criminalização só aumenta o índice de criminalidade, e afirmo mais uma vez, não soluciona o problema.

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O que você deve saber sobre a proibição das drogas

Agora a noite achei este vídeo no YouTube sobre a situação atual das drogas na nossa sociedade. Esta quem fala é a professora de economia Angela Dills, uma defensora dos ideias libertários, assim como eu. Assistam o vídeo que além de curto é muito exemplificador e esclarecedor.

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A nova geração de maricas

Bom, até iria publicar um texto nesta tarde mas acabei me enrolando na revisão. 
Como de costume. Vou deixar aqui então uma bela produção textual do blogueiro 
André Filho.  Boa leitura.




Estudiosos do mundo inteiro se reuniram e começaram a tentar descobrir alguns porquês. Dias e noites, eles batalharam para descobrir a causa da nossa sociedade estar sempre pisando em ovos, sempre com uma cautela ímpar para não ofender ninguém com um passo errado, passando por tempestades em copos de água jamais vistas nos sete mares. Então, descobriu-se o cerne da questão. O merthiolate parou de arder.
Em uma sociedade na qual o merthiolate ardia tudo fazia sentido. O ardor deste remédio para sarar feridas mostrava às crianças o que, realmente, era dor. Não existiam essas frescurinhas de reclamar de tudo. Existia algo para nivelar tudo, existia o pavor de ter aquele líquido vermelho passado no joelho ralado. A boa e velha tensão e a cara falsa da mãe dizendo que não ia arder. Era a maior das mentiras. Bem, com isso, em nosso subconsciente ficava sempre aquilo como marco referencial, se algo acontecesse, nossa mente, involuntariamente, comparava os sentimentos do que estava acontecendo com a dor do remédio, e verificava se valia a pena à queixa. Por isso as reclamações eram menores, as pessoas se ofendiam menos e não chorávamos por qualquer coisa. Como havia um problema central, maior e relevante, não se desperdiçava preocupação com coisas desimportantes. Era preciso ter cuidado para evitar acontecimentos que teriam como consequência o merthiolate. Uma geração foi criada sob este pilar da valorização de acontecimentos dignos e não a banalização de tudo, de dar relevância a qualquer cisco que caísse em nossos olhos.
Eis que o destino, este que gosta de dificultar as coisas, quis que aparecesse um bem intencionado, com a seguinte ideia: Fazer o merthiolate parar de arder. Eu espero, sinceramente, que o filho de 15 anos dele chore no fim de Glee e esperneie todas as vezes que o Justin Bieber cancelar um show no Brasil. Perdeu-se um norte. Sem isso, as pessoas que foram criadas sendo saradas pela nova composição do remédio, não sabem do que, nem como reclamar. Percebeu-se um anseio de buscar algo para tal função, e, por vários erros de comunicação, ou a não existência da mesma, cada um escolheu o seu motivo e desembestou a reclamar, a sentir-se ofendido, a sentir-se péssimo, a odiar alguém, a odiar tudo. Como bem disse, e eu – Quem sou eu, né?!- assino embaixo, Clint Eastwood: “Vivemos em uma geração meio mariquinha”. E não estamos falando de opção sexual. A análise se baseia sobre o grau de importância que as pessoas dão às coisas pequenas, fazem de uma dor de barriga, uma úlcera irreversível. Utilizam-se de singelos comentários, inocentes ou não, como provas cabais de ofensas inaceitáveis com a mesma gravidade de ter a mãe chamada de feia. Ofende. Mas, vestir toda e qualquer carapuça, não é saudável, é infantil, coisa de quem não tem com o que se preocupar, não tem ninguém pra comer e se beneficiou com o fato do merthiolate não arder.
Resta-nos esperar, ou lutar contra tudo isso, contra não poder olhar feio pra ninguém, sem algum ataque de nervos acusando de todos os preconceitos possíveis. Contra quem não bebe cerveja porque é amargo. E quem usa merthiolate que não arde. Ou apenas viver a nossa vida, e torcer pra ninguém pôr o calo debaixo do nosso pé. Como diziam nos áureos tempos que sarar feridas ardia feito fogo: “Engole o choro”.

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